Gestor: O Ponto Estratégico
“A transformação não virá de fora — precisa partir dos próprios educadores.”
Pedro Calebe Moitinho Peixoto, 35 anos, é professor por formação e diretor do Centro de Ensino Médio 01 de Sobradinho há 3 anos. Com formação em Letras Inglês, História e Ciências de Dados, ele comanda a escola em Brasília-DF trazendo na bagagem tanto a experiência de gestor quanto a vivência de uma pessoa com autismo.
Na instituição que dirige, com quase dois mil alunos e uma única pedagoga, ele enfrenta barreiras predominantemente institucionais e pedagógicas — não sociais, como se poderia imaginar. Para Pedro, o maior gargalo reside na falta de formação docente: professores chegam às salas de aula sem saber como adaptar conteúdos para estudantes com deficiência intelectual, autismo ou dislexia.
Realista e comprometido, ele destaca que a inclusão genuína vai além da presença do aluno em sala de aula — é preciso garantir aprendizado real. Mesmo com os recursos limitados da rede pública, Pedro trabalha na mediação entre especialistas e professores regentes, promove estratégias colaborativas nas coordenações coletivas e celebra cada história de sucesso — como a de uma ex-aluna com laudo de deficiência intelectual que hoje cursa Pedagogia na Universidade de Brasília.
Centro de Ensino Médio 01 de Sobradinho — escola pública do DF dirigida pelo Professor Pedro Calebe, com quase dois mil alunos.
Espaços do CEM 01 de Sobradinho, escola que integra Sala de Recursos Multifuncional ao projeto pedagógico.
Atividades no CEM 01 de Sobradinho: a escola promove coordenações coletivas semanais para construção colaborativa de adaptações curriculares.
Quais são as principais barreiras que alunos com deficiência enfrentam no ensino médio público hoje — e em que medida essas barreiras são físicas, pedagógicas ou atitudinais?
Hoje, no ensino médio, acredito que a maior dificuldade encontrada por um aluno com deficiência é o fato de a maioria dos professores não ter recebido formação sobre como adaptar o ensino. Cada aluno tem sua necessidade específica, e é necessário que o professor compreenda essa adaptação; os professores precisam ter formação para contribuir com a inclusão.
Há, ainda, a necessidade de apoio ao professor. Com quase dois mil alunos e uma única pedagoga, a Sala de Recursos acaba sobrecarregada. Atualmente, os alunos acolhem muito bem os demais colegas — as barreiras enfrentadas são institucionais e não sociais.
O Novo Ensino Médio foi apresentado como uma reforma que ampliaria trajetórias e escolhas. Na prática, o que essa reestruturação representou para os alunos público-alvo da Educação Especial?
O Novo Ensino Médio, atual PNAEM¹, mudou o foco do ensino médio, e nenhuma de suas práticas foi pensada para a Educação Especial: não se menciona adaptação nem flexibilização curricular, tampouco se tratam temas transversais como inclusão ou deficiência. Desde 2020, aqui em Brasília, já houve quatro mudanças no ensino médio. Com a BNCC², surgem temas transversais sobre inclusão e adaptação, mas não há um capítulo específico dedicado ao tema.
“Com quase dois mil alunos e uma única pedagoga, a Sala de Recursos acaba sobrecarregada. As barreiras que enfrentamos são institucionais e pedagógicas — não sociais.”
A verba repassada pelo FUNDEB³ é suficiente para garantir um AEE⁴ de qualidade — com professor especializado, materiais adaptados, tecnologia assistiva e espaço adequado?
Recebemos verbas federais e distritais. A do governo distrital não é voltada exclusivamente para o AEE — cabe a cada escola ter esse olhar. Do governo federal, a verba é irrisória e provém do PDDE⁵. Há alguns anos, recebemos uma verba destinada à inclusão e conseguimos instalar um sinal luminoso e o piso tátil; não foi possível reformar os banheiros adaptados, que acabaram sendo reformados por meio de emenda parlamentar. Os materiais para a Sala de Recursos são adquiridos com verba do PDAF⁶.
Quando a escola recebe um aluno com deficiência sem laudo, sem diagnóstico ou com documentação incompleta, qual é o protocolo?
Oficialmente, precisamos do laudo para garantir o atendimento em Sala de Recursos, mas, dentro da escola, buscamos flexibilizar algumas situações. É possível construir, junto aos professores e pedagogos, uma forma de agir com esse estudante. Temos uma pedagoga que auxilia as famílias a buscar os profissionais necessários para concluir o processo diagnóstico. Com algum relatório que o aluno apresente, já conseguimos acolhê-lo e iniciar o trabalho. Monitor e educador social voluntário, no entanto, são disponibilizados apenas mediante laudo e estudo de caso.
Como a Sala de Recursos Multifuncional está posicionada na estrutura da sua escola — é um espaço central, integrado ao projeto pedagógico, ou ainda funciona como um “apêndice” isolado?
Hoje, ela não ocupa um espaço central; funciona como um ponto de atendimento. Os professores da Sala de Recursos são os especialistas que nos orientam, e o espaço acaba tendo um papel mais consultivo do que estruturante. No ensino médio, o foco que identificamos como central para nosso público é o acesso à universidade.
Qual é a relação concreta entre o professor do AEE e os professores das disciplinas? Existe planejamento conjunto e elaboração colaborativa de adaptações curriculares?
No ensino médio, a relação entre os professores regentes e os professores da Sala de Recursos é mais complexa. Como escola, buscamos abrir o diálogo entre esses profissionais: toda quarta-feira, nas coordenações coletivas, abrimos espaço para tratar dos alunos, dos atendimentos e de outras questões pertinentes.
Ainda é uma relação tensa: muitas vezes, o professor do AEE vê o estudante com deficiência de forma idealizada e desconhece como esse aluno se comporta dentro de sala de aula; por outro lado, o professor regente também não consegue enxergar o aluno sob a perspectiva de quem tem especialização. A direção procura fazer a mediação entre ambos — definindo o que é possível e o que não é —, sempre visando o melhor para o estudante.
“Toda quarta-feira, nas coordenações coletivas, abrimos espaço para tratar dos alunos e construir estratégias em conjunto com os professores especializados e a pedagoga.”
O estudante do AEE participa ativamente das decisões sobre seu próprio atendimento? A família é parceira real ou só é acionada em situações de conflito?
Algumas famílias são parceiras efetivas, acompanham e apoiam seus filhos. Outras desejam apenas que o estudante frequente as aulas e seja aprovado ao final do ano, sem acompanhar seu desenvolvimento real. Essas famílias são convocadas à escola para conversar e tomar consciência da situação. É importante lembrar que a Sala de Recursos e o atendimento são um direito — e não uma obrigação.
Os professores do ensino médio se sentem preparados para adaptar seus conteúdos para alunos com autismo, deficiência intelectual, surdez ou altas habilidades?
Não. A maioria não se sente apta. É um conjunto de todos esses fatores: falta formação inicial, formação continuada, tempo e disposição. Quem conclui a graduação hoje não sai com uma boa formação em adaptação curricular. Na Secretaria de Educação, existe a EAPE⁷, que oferece cursos, mas os professores a percebem como distante, e muitos cursos não são ofertados a distância, o que desmotiva a participação.
No ensino médio, há professores que se recusam a adaptar, alegando que o mundo não é adaptado, que estão na escola há 30 anos sem nunca terem precisado fazer isso. As primeiras adaptações reais no ensino médio surgiram após 2018 — antes disso, na prática, as pessoas tinham pouco conhecimento sobre o tema. Hoje, os estudantes e famílias exigem a adaptação curricular.
“Quem conclui a graduação hoje não sai com uma boa formação em adaptação curricular. É uma barreira bastante diferente do que se observa no ensino fundamental.”
Quando um professor regente chega até você dizendo que “não sabe o que fazer” com determinado aluno com deficiência, como a gestão responde?
Aqui na escola, temos o hábito de, nas coordenações coletivas — que ocorrem às quartas-feiras —, trazer os casos dos alunos para discussão. É comum os professores perguntarem como proceder com alunos que apresentam dificuldades. Esse é um espaço onde o professor pode buscar apoio, trocar experiências sobre adaptações e construir estratégias, contando com a participação dos professores da Sala de Recursos e dos pedagogos. Embora não tenhamos todas as respostas, sempre acolhemos os professores regentes e tentamos traçar estratégias em conjunto.
A formação continuada em Educação Especial é uma realidade no calendário da sua escola, ou depende da iniciativa individual de cada professor?
Depende da iniciativa individual de cada professor. Na escola, não há um calendário institucional de formação. A cada seis meses, os professores da Sala de Recursos apresentam o perfil dos alunos e explicam como realizar as adequações para cada um — uma abordagem centrada nos estudantes da escola, e não em conteúdos genéricos.
O bullying e o capacitismo ainda são desafios concretos para a permanência de alunos com deficiência no ensino médio. Como a sua escola identifica e responde a essas situações?
Essa geração de alunos apresenta diversas questões de ordem social e comportamental, mas é possível perceber que têm muito mais capacidade de acolhimento do que as gerações anteriores. O bullying e o capacitismo existem, mas em menor intensidade. Aqui na escola, adotamos tolerância zero em relação ao bullying: ao tomarmos conhecimento de qualquer situação, convocamos o agressor, as famílias do agressor e da vítima, e conduzimos uma orientação. Realizamos também campanhas antibullying e, na maior parte dos casos, encontramos turmas acolhedoras em relação aos estudantes com deficiência.
A inclusão que acontece na sua escola é predominantemente social — o aluno está presente — ou é também pedagógica, com aprendizado real e participação genuína?
Há alunos que chegam ao ensino médio sem alfabetização, por diversas circunstâncias. Como adaptar um conteúdo do ensino médio para um estudante que não foi alfabetizado? A inclusão social existe para todos os alunos com deficiência, mas muitas vezes precisamos retomar o processo de alfabetização com esse estudante. A inclusão com aprendizado real é, portanto, relativa — adaptamos o que é possível adaptar.
“Por exemplo: para ensinar o conteúdo de movimento retilíneo uniforme em Física, como explicar ao aluno que não compreende o conceito de grandeza? É preciso começar por aí, trabalhar de forma prática — e algum aprendizado ele vai construir.”
Como a intersecção entre deficiência, raça e pobreza aparece na sua escola?
Na nossa escola, apesar de estarmos na periferia de Brasília, não observamos grande vulnerabilidade social. O que identificamos é que o aluno com maior poder aquisitivo geralmente tem o processo diagnóstico concluído, enquanto alunos com menor poder aquisitivo encontram mais dificuldades para concluir o laudo e para conhecer seus direitos.
Como adaptar instrumentos avaliativos de forma que meçam genuinamente o aprendizado do aluno com deficiência, sem reduzir exigências de forma arbitrária?
Adaptar é uma grande dificuldade que enfrentamos. Cada aluno tem sua particularidade, e o processo depende muito de quem está disponível para dar apoio. O professor precisa compreender a forma de aprender de cada um — e, como escola, estamos todos aprendendo, construindo aos poucos as melhores formas de fazer isso. Hoje contamos com uma equipe coesa na Sala de Recursos, com orientadores e pedagogos capazes de traçar estratégias e orientar os professores.
Na prática, os alunos da sua escola chegam ao ENEM conhecendo e sabendo solicitar os recursos de acessibilidade? Quem os orienta?
Orientamos os alunos e divulgamos as informações sobre como realizar esse pedido. Aqui na escola, desde o primeiro ano do ensino médio, aplicamos avaliações bimestrais no formato do ENEM — o que faz com que os alunos já conheçam as adaptações e os recursos de acessibilidade a que têm direito. As questões são elaboradas no mesmo modelo das questões do exame. Divulgamos, treinamos e estimulamos os alunos a solicitarem essas adaptações.
“Desde o primeiro ano do ensino médio, aplicamos avaliações no formato do ENEM — para que os alunos já conheçam as adaptações e os recursos de acessibilidade a que têm direito.”
Quais são os maiores desafios para a transição do jovem com deficiência do ensino médio para o ensino superior ou para o mercado de trabalho?
O mundo ainda não é inclusivo, por isso buscamos preparar nossos alunos e fazê-los compreender que têm direitos para garantir sua inclusão. É uma transição difícil: eles saem da escola e precisam lutar para que esses direitos sejam respeitados.
Aqui na escola, temos dois professores autistas⁸ a quem auxiliamos no processo de adaptação funcional — o barulho e a movimentação, por exemplo, são fatores que impactam diretamente o desempenho deles, de modo que organizamos o horário de forma que fiquem em salas com menos movimentação. Por isso, trabalhamos o desenvolvimento emocional e psicológico dos alunos, para que tenham condições de reivindicar seus direitos.
A escola acompanha o que acontece com seus egressos com deficiência após a conclusão do ensino médio?
Sim, mantemos contato com os alunos. Todo início de ano, quando os professores da Sala de Recursos apresentam os estudantes atuais, incluem também os egressos e suas conquistas: quem está na faculdade, quem está trabalhando, as realizações individuais. Procuramos sempre saber suas histórias — nem todas são histórias de sucesso, mas cada conquista é celebrada.
Se você pudesse mudar uma única coisa no sistema público de educação para fazer a inclusão funcionar de verdade, o que seria?
Mudaria a forma de organização dos monitores. São pessoas que, muitas vezes, não têm a formação necessária para oferecer o apoio adequado. Com melhor estrutura, o monitor poderia contribuir muito mais com o estudante.
Existe na sua escola um caso de inclusão bem-sucedida que te orgulha e que poderia servir de modelo para outras escolas?
Temos alguns casos de sucesso na inclusão. Temos um aluno atleta em nível paralímpico e uma aluna que cursa Pedagogia na Universidade de Brasília (UnB): ela foi aluna da Sala de Recursos e tem laudo de deficiência intelectual. A chave do sucesso em ambos os casos foi o trabalho articulado entre a escola, a Sala de Recursos e a família.
“A chave do sucesso foi o trabalho articulado entre a escola, a Sala de Recursos e a família. Uma ex-aluna com laudo de deficiência intelectual hoje cursa Pedagogia na UnB.”
O que você diria a um professor que está começando agora na Educação Especial e está se sentindo sobrecarregado, sem suporte e sem perspectiva de melhora?
O que esse professor pode fazer para encontrar algum senso de completude é deixar de focar nos problemas e concentrar-se no bem que pode fazer pelos alunos com os recursos que tem. Quando ele compreender que não pode esperar que as mudanças venham de fora — que as coisas precisam partir dele para que se sinta melhor —, a perspectiva muda.
Depender de recursos externos é, infelizmente, algo que não podemos considerar como base: isso não é visto como prioridade nem como política de Estado, nem mesmo dentro da Secretaria de Educação.
Como você enxerga o futuro da Educação Especial no Brasil nos próximos dez anos — com otimismo, com preocupação, ou com ambos?
Vejo com preocupação e com otimismo. Percebemos que muitas pessoas estão tomando consciência dos seus direitos e ganhando informação sobre a educação inclusiva, mas o movimento é mais na direção dos direitos legais do que da prática inclusiva em si. Temos visto influenciadores digitais que falam sobre autismo e deficiência no YouTube — e trazem muita informação sobre como recorrer à Justiça para garantir direitos, mas poucos falam sobre como adaptar, como incluir na prática.
Vejo o futuro com preocupação, ainda que com otimismo, porque direitos foram conquistados — mas a questão é como esses direitos estão sendo conduzidos.
¹ PNAEM: Programa Nacional do Ensino Médio, reforma curricular implementada em substituição ao Novo Ensino Médio.
² BNCC: Base Nacional Comum Curricular, documento que define as aprendizagens essenciais da educação básica.
³ FUNDEB: Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação.
⁴ AEE: Atendimento Educacional Especializado, serviço oferecido preferencialmente em Salas de Recursos Multifuncionais.
⁵ PDDE: Programa Dinheiro Direto na Escola, repasse federal de recursos às escolas públicas.
⁶ PDAF: Programa de Descentralização Administrativa e Financeira, programa do Governo do Distrito Federal.
⁷ EAPE: Escola de Aperfeiçoamento dos Profissionais da Educação, instituição de formação continuada da SEEDF.
⁸ Nota sobre linguagem: O entrevistado utiliza “professores autistas”, adotando a perspectiva da identidade-primeiro, preferida por parte significativa da comunidade autista. A SR Revista mantém essa escolha em respeito à voz do sujeito da pesquisa.
Uma entrevista que provoca e inspira
“A transformação não virá de fora —precisa partir dos próprios educadores.”
A SR Sala de Recursos Revista agradece ao Professor Pedro Calebe pela abertura, pela sinceridade e pelo comprometimento com a educação inclusiva.
35 anos. Formação em Letras Inglês, História e Ciências de Dados. Diretor do CEM 01 de Sobradinho há 3 anos. Defende a inclusão genuína — com aprendizado real — e trabalha diariamente na mediação entre especialistas e professores regentes, promovendo estratégias colaborativas nas coordenações coletivas semanais.
PEIXOTO, Pedro Calebe Moitinho; PEREIRA, Luciana Reis (entrev.). Gestor: O Ponto Estratégico. Sala de Recursos Revista, Brasília, v. 6, n. 1, 2025. Disponível em: <https://saladerecursos.com.br/entrevista_pedro_calbe/>. Acesso em: [data].
saladerecursos.com.br
