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Guia Prático do Estudo de Caso: educação especial

Sentir o Mundo de Outro Jeito: hipersensibilidade sensorial nas AH/SD — SR Sala de Recursos Revista
Para as Famílias Vol. 6 · Nº 1 · 2026 SR Sala de Recursos Revista

Altas Habilidades ou Superdotação · Brasília, DF

Sentir o Mundo de Outro Jeito

Compreendendo a hipersensibilidade sensorial nas altas habilidades ou superdotação.

Leitura: 9 minutos Socorro de Fátima Araújo dos Santos Para as famílias
Foto de Socorro de Fátima Araújo dos Santos: mulher de cabelos castanhos ondulados, sorriso aberto, vestindo blusa clara, em ambiente externo.

Socorro de Fátima Araújo dos Santos

Professora, neuropsicopedagoga, especialista em Educação Especial, Educação Inclusiva e Altas Habilidades ou Superdotação

“A hipersensibilidade não deve ser compreendida simplesmente como uma incapacidade de lidar com determinados ambientes. Ela pode ser entendida como uma forma particular de experimentar o mundo.”

As sensações estão presentes em todos os lugares e fazem parte de nossas experiências cotidianas, ainda que, muitas vezes, não paremos para percebê-las. Sons, toques, imagens, sabores, cheiros e movimentos estão constantemente ao nosso redor e fornecem informações que são recebidas e processadas pelo nosso cérebro — e crianças com altas habilidades ou superdotação costumam processar essas informações de um jeito mais intenso do que os adultos ao redor imaginam.

Por Socorro de Fátima Araújo dos Santos · SR Sala de Recursos Revista

Audiodescrição da autora

Socorro de Fátima Araújo dos Santos é uma mulher de cabelos castanhos ondulados, com sorriso aberto; na foto, veste uma blusa clara e está em um ambiente externo.

Sobre a autora

Socorro de Fátima Araújo dos Santos é professora da rede pública, neuropsicopedagoga e especialista em Educação Especial, Educação Inclusiva e Altas Habilidades ou Superdotação (AH/SD), com especialização em Desenvolvimento Humano (Febracis, 2020). É membra do Comitê Editorial da SR Sala de Recursos Revista.

Sobre esta seção

Este texto inaugura “Para as Famílias”, uma nova seção da SR Sala de Recursos Revista dedicada a levar, de forma acessível, orientações fundamentadas às famílias de estudantes público da educação especial — começando pela hipersensibilidade sensorial nas altas habilidades ou superdotação (AH/SD), tema ainda pouco discutido fora dos consultórios e das salas de recursos.

O que você vai encontrar aqui

Altas Habilidades ou Superdotação é público-alvo formal da Educação Especial (Decreto nº 12.686/2025). Uma de suas características menos faladas é a hipersensibilidade — a capacidade acentuada de responder a estímulos e experiências, que pode se manifestar nas dimensões psicomotora, sensorial, intelectual, imaginativa e emocional. Este texto trata especificamente da dimensão sensorial: como reconhecê-la, por que validá-la e como a família pode ajudar.

Referências

Decreto nº 12.686/2025 · Dunn (2007) · Sabatella (2008)

1Somos seres sensoriais em um mundo sensorial

Como as sensações moldam nossas experiências

As sensações estão presentes em todos os lugares e fazem parte de nossas experiências cotidianas, ainda que, muitas vezes, não paremos para percebê-las. Sons, toques, imagens, sabores, cheiros e movimentos estão constantemente ao nosso redor e fornecem informações que são recebidas e processadas pelo nosso cérebro. Nosso corpo está continuamente recebendo informações sensoriais do ambiente e de nós mesmos, e essas informações participam da maneira como experimentamos e respondemos ao mundo.

O mundo ao nosso redor produz sons, oferece diferentes texturas, cheiros e sabores, além de uma ampla diversidade de coisas a serem vistas e percebidas, sendo assim, nossas experiências estão profundamente relacionadas às sensações presentes em determinada ocasião, contexto ou ambiente. Isso pode ser percebido, inclusive, na maneira como contamos nossas experiências utilizando palavras sensoriais, como por exemplo, quando descrevemos um restaurante como “lotado e barulhento”, um dia na praia como “quente e úmido” ou até mesmo uma maçã como “farelenta”. Essas descrições revelam que nossas experiências não são constituídas apenas pelo que acontece, mas também pela maneira como percebemos sensorialmente aquilo que acontece.

Embora todos sejamos seres sensoriais, não experimentamos as sensações da mesma maneira. Cada pessoa possui uma forma particular de perceber, processar e responder às informações sensoriais, pois diferem na quantidade de informação sensorial de que necessitam para responder adequadamente às demandas do cotidiano, fazendo com que uma mesma situação possa ser vivenciada de maneiras diferentes. Assim, compreender as sensações significa também reconhecer que não existe uma única maneira de experimentar o mundo: aquilo que é agradável, indiferente ou incômodo para uma pessoa pode produzir uma experiência completamente diferente em outra.

2O que é hipersensibilidade?

Cinco dimensões, uma delas sensorial

Pessoas com altas habilidades ou superdotação possuem uma característica chamada hipersensibilidade, que diz respeito a uma capacidade acentuada de responder aos estímulos e às experiências, podendo se manifestar em diferentes dimensões da vida e pode ser dividida em cinco áreas: psicomotora, sensorial, intelectual, imaginativa e emocional. Embora essas dimensões estejam relacionadas, este trabalho se concentra especificamente na hipersensibilidade sensorial, buscando compreender de que maneira uma percepção mais intensa dos estímulos pode atravessar as experiências cotidianas.

A hipersensibilidade pode fazer com que determinadas reações sejam percebidas pelas pessoas ao redor como exageradas ou desproporcionais. Especialmente durante a infância, manifestações relacionadas à sensibilidade podem ser interpretadas como birras, falta de educação ou ausência de limites, quando, na realidade, estão relacionadas com o funcionamento da criança com altas habilidades ou superdotação. Nesse sentido, compreender a sensibilidade para além de uma questão comportamental permite deslocar o olhar daquilo que a criança “faz” para aquilo que ela está experimentando.

Durante a infância, essas manifestações podem ser particularmente perceptíveis, uma vez que as crianças nem sempre possuem os recursos necessários para explicar verbalmente aquilo que estão sentindo. Uma criança pode, por exemplo, demonstrar grande incômodo ao andar descalça sobre a grama ou a areia, reclamar durante o corte das unhas ou chorar diante da sensação do vento no rosto. Da mesma maneira, pode apresentar forte interesse por determinados cheiros, como o de terra molhada, e ser capaz de perceber diferenças sutis entre odores, ao mesmo tempo em que demonstra grande desconforto diante de outros ambientes ou cheiros específicos.

Menino sorridente segura um desenho detalhado de uma lagartixa verde com manchas coloridas.
Desenho de lagartixa com riqueza de detalhes e texturas — a atenção intensa ao detalhe é um traço frequente em crianças com AH/SD. Foto ilustrativa — arquivo pessoal da autora.

A sensibilidade também pode aparecer na relação com toques e texturas. O incômodo provocado pelas etiquetas das roupas, por exemplo, pode fazer com que seja necessário retirá-las, enquanto determinadas texturas ou sabores podem contribuir para uma maior seletividade alimentar. Sons e luminosidade também podem produzir respostas intensas: ambientes muito barulhentos, sons agudos, ruídos inesperados ou luzes fortes podem ser percebidos como extremamente incômodos.

É importante destacar, ainda, que essas características não necessariamente desaparecem com o passar dos anos, a sensibilidade pode continuar presente na vida adulta, embora suas manifestações possam assumir formas diferentes. Um adulto pode, por exemplo, demonstrar grande incômodo diante de determinados sons, cheiros, texturas, ambientes ou formas de contato, sendo eventualmente percebido pelos outros como alguém “sensível demais”. Assim, pensar a sensibilidade como uma característica que pode acompanhar diferentes fases da vida permite compreender que determinadas respostas não devem ser observadas exclusivamente como comportamentos isolados, mas também em relação à experiência sensorial daquele indivíduo.

Para lembrar

A hipersensibilidade não deve ser compreendida simplesmente como uma incapacidade de lidar com determinados ambientes. Ela pode ser entendida como uma forma particular de experimentar o mundo, na qual certos estímulos ganham uma intensidade que nem sempre é compartilhada pelas pessoas ao redor.

3Por que validar e respeitar essa característica do meu filho com AH/SD?

Da birra aparente à comunicação real

Compreender a hipersensibilidade sensorial é também compreender que determinadas experiências que parecem pequenas para os adultos podem ser vivenciadas de maneira muito intensa pela criança, por isso, reconhecer e validar essa característica é fundamental. Quando uma criança demonstra incômodo diante de um som, de uma textura, de um cheiro, de uma roupa ou de um alimento, sua reação não deve ser imediatamente interpretada como birra, exagero ou falta de limites. Antes de julgar o comportamento, é importante considerar o que aquela criança está percebendo e sentindo naquele momento.

A validação, nesse sentido, não significa concordar com todos os comportamentos da criança ou permitir que ela faça tudo o que deseja. Significa reconhecer que aquilo que ela está experimentando é real para ela. Se uma criança afirma que determinado som incomoda, por exemplo, dizer que “não é nada demais” pode fazer com que ela aprenda a desconfiar das próprias percepções. Ao contrário, quando o adulto reconhece seu desconforto, abre-se espaço para compreender aquela experiência e pensar, junto com a criança, em maneiras de lidar com a situação.

Essa compreensão se torna ainda mais importante quando consideramos que crianças nem sempre conseguem explicar com clareza aquilo que estão sentindo. Uma criança pequena pode não saber dizer que uma determinada textura provoca desconforto ou que o excesso de sons em um ambiente está sendo difícil de suportar. Ela pode simplesmente chorar, se afastar, recusar determinada atividade ou demonstrar irritação. Nesse caso, o comportamento pode ser uma forma de comunicação de uma experiência que a criança ainda não consegue nomear.

Menino sorridente segura um desenho colorido e detalhado de um dinossauro.
Ilustração produzida com atenção detalhada a cores e padrões — expressar-se por meio do desenho pode ser uma forma de comunicar aquilo que ainda não vira palavra. Foto ilustrativa — arquivo pessoal da autora.

Validar essa característica também significa respeitar a individualidade da criança. Se ela apresenta uma sensibilidade maior a determinados estímulos, compreender suas necessidades pode contribuir para que os ambientes em que vive sejam mais acolhedores e para que ela encontre estratégias que permitam participar das atividades cotidianas sem que suas experiências sejam constantemente deslegitimadas. Pequenas adaptações podem fazer diferença, especialmente quando o objetivo não é eliminar todos os estímulos, mas possibilitar que a criança compreenda suas próprias necessidades e desenvolva maneiras de lidar com elas.

Além disso, quando a criança percebe que suas experiências são levadas a sério, ela pode encontrar no adulto uma pessoa de confiança para comunicar aquilo que sente. Isso é particularmente importante durante a infância, período em que ela ainda está aprendendo a identificar, nomear e compreender suas próprias experiências. Validar não é superproteger; é oferecer condições para que a criança compreenda a si mesma.

Uma pergunta que muda a conversa

Mais do que perguntar “como faço meu filho parar de reagir assim?”, talvez seja necessário começar perguntando: “o que meu filho está tentando me comunicar por meio dessa reação?”. Esse deslocamento do julgamento para a compreensão permite enxergar a criança não como alguém que está exagerando, mas como alguém que está tentando lidar com uma experiência que, para ela, pode ser muito intensa.

4Como posso ajudar meu filho a lidar com a hipersensibilidade?

Observar, adaptar e preparar — sem eliminar o mundo sensorial

Depois de reconhecer e validar a experiência sensorial da criança, surge uma questão importante para os pais: como ajudá-la a lidar com aquilo que sente? Se a hipersensibilidade faz parte da maneira como a criança experimenta o mundo, o objetivo não deve ser simplesmente eliminar essa característica ou fazer com que ela “aprenda a suportar” todos os estímulos. O caminho pode estar em compreender quais situações provocam maior desconforto e, a partir disso, construir estratégias que permitam à criança participar de suas atividades cotidianas de maneira mais confortável e segura.

O primeiro passo é observar a criança. Quais situações parecem incomodá-la? Em quais ambientes suas reações se tornam mais intensas? Existem determinados sons, cheiros, texturas, sabores, roupas ou formas de contato que ela procura evitar? Da mesma maneira, é importante observar aquilo que parece proporcionar conforto. A partir dessa observação, os pais podem começar a identificar padrões e compreender melhor as necessidades sensoriais de seus filhos.

Essa observação também permite que os adultos percebam que nem sempre a reação da criança está relacionada ao que inicialmente parece ser o problema. Uma criança que se recusa a entrar em determinado ambiente, por exemplo, pode não estar simplesmente “fazendo birra”, talvez existam muitos sons, cheiros, pessoas, movimentos ou outros estímulos acontecendo simultaneamente. Da mesma forma, uma criança que se recusa a vestir determinada roupa pode estar reagindo à textura do tecido ou à presença de uma etiqueta. Compreender o que antecede a reação pode ser tão importante quanto observar a própria reação.

Como já foi dito anteriormente, as pessoas possuem diferentes formas de responder às informações sensoriais. Isso significa que uma estratégia que funciona muito bem para uma criança pode não funcionar para outra, por isso, não existe uma solução única para lidar com a hipersensibilidade, é necessário conhecer a criança e perceber quais condições favorecem seu bem-estar.

Criança ajoelhada no chão manuseia uma criação artesanal feita com papel e plástico-filme.
Criação artesanal com papel e plástico-filme — o engajamento intenso com texturas e materiais também é parte de como essas crianças exploram o mundo. Foto ilustrativa — arquivo pessoal da autora.

Uma possibilidade é realizar pequenas adaptações no ambiente, especialmente quando determinado estímulo provoca desconforto significativo. Em situações de excesso de barulho, por exemplo, pode ser possível buscar um espaço mais tranquilo ou diminuir, quando possível, a quantidade de sons presentes. Em relação às roupas, pode-se experimentar diferentes tecidos e retirar elementos que provoquem incômodo. Na alimentação, em vez de interpretar a seletividade como uma simples recusa, pode-se observar quais texturas, sabores, temperaturas ou cheiros são mais difíceis para a criança e respeitar seu processo de familiarização com novos alimentos.

Também é importante preparar a criança para determinadas situações, previsibilidade é algo que auxilia na regulação das emoções das pessoas com altas habilidades ou superdotação. Quando os pais sabem que ela será exposta a um ambiente diferente ou a estímulos que costumam provocar desconforto, conversar previamente sobre o que irá acontecer pode ajudá-la a compreender e antecipar a experiência. Aos poucos, a criança pode aprender a reconhecer aquilo que sente e a comunicar suas necessidades: “esse barulho está me incomodando”, “essa roupa está pinicando”, “esse cheiro está muito forte”. Essa capacidade de reconhecer e comunicar as próprias sensações é importante para que ela desenvolva maior autonomia.

Ao mesmo tempo, ajudar uma criança com hipersensibilidade não significa organizar toda a sua vida para que ela nunca entre em contato com aquilo que lhe causa desconforto. O objetivo não é construir um mundo sem estímulos, mas ajudá-la a encontrar maneiras de viver em um mundo que é, inevitavelmente, sensorial. As adaptações devem ser pensadas de acordo com cada situação, buscando um equilíbrio entre respeitar os limites da criança e possibilitar que ela participe das experiências próprias de sua idade.

Por isso, o papel dos pais pode ser menos o de “corrigir” a sensibilidade e mais o de acompanhar, observar e ensinar a criança a compreender seu próprio funcionamento. Conforme cresce, ela pode começar a reconhecer quais situações são mais difíceis, quais estratégias ajudam e como comunicar aos outros aquilo de que necessita. O que inicialmente depende da mediação dos adultos pode, aos poucos, transformar-se em uma capacidade da própria criança de reconhecer e cuidar de suas necessidades sensoriais.

Em resumo

A sensibilidade não precisa ser eliminada para que a criança consiga viver bem, ela precisa ser compreendida. Família, escola e outros espaços de convivência têm um papel importante na construção de ambientes nos quais a criança possa ser acolhida, desenvolver autonomia e encontrar formas próprias de participar do mundo.

Referências

DUNN, Winnie. Living sensationally: understanding your senses. London: Jessica Kingsley Publishers, 2007.

SABATELLA, Maria Lúcia Prado. Talento e superdotação: problema ou solução? 2. ed. Curitiba: Ibpex, 2008.

Para as Famílias

“A sensibilidade não precisa ser eliminada para que a criança consiga viver bem, ela precisa ser compreendida.”

A SR Sala de Recursos Revista agradece à professora Socorro Santos por inaugurar a seção Para as Famílias com um texto que ajuda pais, professores e a própria criança a darem nome àquilo que sentem.

Foto de Socorro de Fátima Araújo dos Santos

Socorro de Fátima Araújo dos Santos

Professora, neuropsicopedagoga, especialista em Educação Especial, Educação Inclusiva e Altas Habilidades ou Superdotação

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