Tecnologia Assistiva – Podcast do Artigo
Voz – Lunna Mara

Ao se fazer uma análise direta e objetiva das informações contidas na pesquisa relacionadas às respostas da entrevista do participante “D” destacou-se que das dezessete habilidades, nove são listadas como observadas e sucedidas numa frequência percebidas “antes”, “durante” e “após” participar das oficinas de xadrez: “atenção, concentração, julgamento, memória, paciência, vontade de vencer, coragem, lógica matemática e inteligência” e essas são contextualizadas onde, quando e como sucedem às necessidades de sua utilização tanto ao jogar xadrez como em contexto adverso. Outras quatro, segundo relato de “D”, ocorriam apenas durante a participação nas oficinas, ao jogar xadrez: “planejamento, previsão, autocontrole e espírito de decisão”. Uma delas, a “criatividade” durante e após. Outra, “imaginação”, antes e depois. E as duas últimas, “raciocínio analítico e síntese” não foram assinaladas como ocorrências, o que permite subentender que não incidem em nenhuma das situações em análise.
Os resultados advindos da coleta categorizada das dezessete habilidades investigadas totalizadas item a item para cada um dos participantes, considerando o contexto da manifestação da utilização no ato de jogar as partidas de xadrez, essas habilidades são caracterizadas na psicologia como funções psicológicas superiores, de origem biológica conforme pressupostos de Vygotsky (2007, 2008).
Elas “derivam tanto das interações de processos inatos quanto dos adquiridos, junto a relações do indivíduo em sua experiência e vivência com o meio”. Seja da “criança com os adultos e com as outras crianças, as funções elementares se transformam em funções superiores”. Essas funções mentais superiores “são descritas como a linguagem oral e escrita, o desenho, a representação, a lógica, os conceitos, a concepção de mundo, o pensar em objetos ausentes, o imaginar situações nunca vivenciadas, o planejar ações a serem realizadas, isto é, criar, inventar e imaginar um mundo de possibilidades” (HIDALGO, 2016, p. 80).
A “previsão” está intrinsecamente ligada às demais habilidades. Em síntese, relacionam-se com o poder de escolha antecipada do enxadrista, o que ele fará baseado numa estratégia previamente definida, objetivando surpreender o adversário num ou mais movimentos a serem realizados na sequência de jogadas. “D” descreveu-a assim: “— Pensar que peça o outro pode jogar e aí escolher a que devo jogar”.
A previsão é uma habilidade importante, utilizada para se ter boa performance ao jogar xadrez e outros jogos. Ela é indispensável no processo de ensino e aprendizagem tanto para discentes quanto para o corpo docente, pois se trata de um componente entrelaçado ao planejamento que o professor espera funcionar e que resulte na aprendizagem do aluno. Essa habilidade também interage com a capacidade do indivíduo de decidir e evitar o pior com a melhor escolha em situações de tensão, perigo e conflito e no decorrer da vida como um todo. “D” não conseguiu indicar onde fazia previsões além do jogo. Já para “memória” respondeu: “— Memorizar e lembrar dos nomes das peças, dos movimentos, das jogadas de saída, de defesa e ataque”. Liga-se à capacidade de jogar, com o aprendizado desde o básico até às táticas e estratégias que refinam a competência enxadrista. E no contexto extrajogo: “— Lembrar das coisas que aprende em casa, na escola, na rua”.
Quanto ao perceber “lógica matemática” ao jogar xadrez, “D” registrou da seguinte maneira: “— Acho que ficar contando o tanto de peças, guardar as mais fortes para num perder no começo do jogo. Coragem para partir pra cima e avançar até ganhar o jogo”. No cotidiano, ele descreveu lógica matemática assim: “— Ao mexer com números, continhas, problemas na aula de matemática, mexer com dinheiro. Comprar na padaria, supermercado e lanchonete”.
Surpreendentemente mencionou quando percebia a “criatividade” (MARTÍNEZ, 1997) ao jogar xadrez: “— Quando combino jogadas”. E nos ambientes de aprendizagem extra jogo: “— Nas aulas de artes, de redação. Nas oficinas da Apae”. Por último, “D” descreveu a “inteligência”: “ — Em tudo que faço certo pra ganhar o jogo”. E “— Pra fazer todas as coisas no dia a dia”.
Em linhas gerais, ao dimensionar para aplicação extrajogo, o discente relatou a incidência das habilidades em atividades cotidianas da casa, da escola, na Apae, no lazer e no comércio em geral. Relatou cuidados também ao transitar em locais públicos, prevenção de acidentes, de uso de drogas, para evitar violência e viver bem com outros indivíduos no tocante às relações interpessoais, que, segundo ele, deveriam ser pacíficas e harmoniosas.
Se você leu os dois primeiros artigos significa que tem muito interesse neste assunto. Continue acompanhando as próximas edições desta revista ou leia na dissertação de mestrado (NEVES, 2017)
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
HIDALGO, Kenia Ribeiro da Silva. Relações entre cultura e educação escolar: concepções e práticas de professores do ensino fundamental. 2016. 263 p. Tese (Doutorado), PUCGO, 2016.
MARTÍNEZ, Albertina Mitjans. Criatividade, personalidade e educação. Campinas: Papirus, 1997.
NEVES, Eurípedes Rodrigues das. A prática do xadrez no contexto escolar e a aprendizagem de alunos com deficiência intelectual. 2017. 174 f., il. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade de Brasília, Brasília, 2017.
VYGOTSKY, Lev Semyonovich. A brincadeira e o seu papel no desenvolvimento psíquico da criança. Revista Virtual de Gestão de Iniciativas Sociais, Rio de Janeiro, v. 5, n. 11, p. 23-36, jun. 2008.
VYGOTSKY, Lev Semyonovich. A formação social da mente. In: Interação entre aprendizado e desenvolvimento. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, [1935] 2007. p. 87-106.
Atividades com realização de Oficina de Xadrez em evento de comemoração ao Dia dos Pais na Escola Classe 17 de Sobradinho II – DF, em 2019 com alunos do ensino regular.
Figura 2. Foto na qual aparece o autor (instrutor de xadrez), alunos com seus pais em oficina para aprender jogar xadrez. Figura 3 . Foto com o autor instruindo duas crianças de 5 e 7 anos sentadas à mesa sobre como movimentar as peças no tabuleiro de xadrez. Fonte: Facebook – Escola Classe 17 de Sobradinho – DF (2019).


Figuras 4 e 5. Essas figuras ilustram o ato de ensinar xadrez aos docentes, aos pais e seus filhos no Projeto do PPP, Pais e filhos na escola sob a orientação do instrutor. Fonte: Facebook – Escola Classe 17 de Sobradinho – DF (2019).


Como citar:
NEVES, Eurípedes Rodrigues. Contribuições do xadrez à aprendizagem de alunos com deficiência intelectual (Parte 2). In: Revista Sala de Recursos, p. 46 – 49, out. – dez. 2020. Disponível em: <http://www.saladerecursos.com.br>. Acesso: