Resenha

MEU AMIGO TOTORO


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Resenha crítica do filme Meu Amigo Totoro

Edilene Francisco de Carvalho: Pedagoga, Especialista em Educação para e em Direitos Humanos e Mestranda Educação Profissional/UnB Professora/SEEDF há 23 anos. Experiência na área de Educação em Alfabetização Infantil e de Adultos, Coordenação e Gestão Escolar, Educação Especial com visão Inclusiva em Sala de Recursos Generalista e na Educação Especial no Centro de Ensino Especial na área de Educação Ambiental e Deficiência Intelectual. Consultora, formadora e parte do Comitê Editorial da revista: Sala de Recursos Revista. Experiência como Coordenadora Local no Programa DF Alfabetizado, Tutora Educação a Distância nos Cursos de Pedagogia e Educação Física (UNB), Tutor/Cursista Presencial no Curso Escola da Terra destinado a Docente das Escolas do Campo. (UNB/ MEC/SEEDF) e Mediadora do Curso Justiça e Práticas Restaurativas ENS-UnB.

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Lançado em 16 de abril de 1988 e chegou ao Brasil em 8 de março de 1995, “Meu Amigo Totoro”, também conhecido como “Meu vizinho Totoro”, é um filme de animação japonesa de aventura e fantasia produzido pelo Studio Ghibli, com roteiro e direção de Hayao Miyazaki. O filme conta a história de duas crianças que se mudam com o pai, um professor, para uma cidade rural internada.

A trama descreve a vida de uma família, tendo como protagonistas duas irmãs, Satsuki e Mei, essas duas garotinhas vivem aventuras imaginárias baseadas no folclore japonês, enquanto presenciam a ausência da mãe por motivo de doença e as saídas do pai por ser o provedor familiar. Além disso, evidencia a vida em comunidade como um aspecto da cultura local.

O longa se inicia com a chegada do pai, cujo nome é Tatsuo Kusakabe e suas filhas, ainda crianças, que se mudam para uma região rural do Japão com intuito de estabelecerem com mais proximidade do hospital em que a mãe e esposa está internada com uma doença que fica em suspense no filme sem ser revelada.

Um adendo, essa situação da doença da mãe pode ser vista como um fato vivenciado pelo Miyazaki em sua infância, quando sua mãe foi diagnosticada com tuberculose começando assim um tratamento que durou várias décadas.

Enquanto se acostumam com o novo lar, com a falta da mãe, a senhora Yasuko, com as dúvidas e inseguranças, que se agravam com o passar dos dias, as meninas vivenciam as novidades da nova casa e seus derredores. Estabelecendo, assim, amizades com criaturas mágicas (fantasias ou recursos de ajustes psicológicos que favoreceram o amenizar das frustrações e dores vividas) que habitam nas matas, incluindo o enorme e carinhoso Totoro.

Ora, estes laços de fraternidade, afetividade, confiança e empatia criados entre Totoro e as crianças são iguais aos ingredientes mágicos que permeiam o atendimento educacional especializado – AEE. Já que a sala de recursos, onde se acolhe, abraça, abriga os educandos com necessidades educacionais especiais – ENEE,s, é também, por analogia, uma floresta, na qual educando e professor colocam-se dispostos a aprender e ensinar, de forma diferente sim, mas ainda sim, aprender e ensinar de maneira colaborativa.

Totoro é uma figura grandiosa com uma essência que transmite sentimento de conforto, segurança, companheirismo e inocência, além de ser uma criatura atrapalhada e engraçada, promovendo momentos de risadas e felicidades. Nota-se mais uma vez que os atributos de Totoro são a essência do sucesso no AEE, pois ali, no aconchego da sala de recursos, que os ENEE,s encontram a segurança da qual precisam para subir os degraus que levam à autonomia. Ademais, é na sala de recursos que a inclusão escolar realiza-se por completo. Espaço de troca, de pesquisa e de descobertas que até certo ponto são mágicas.

As irmãs vivenciam e compartilham desses instantes de imaginação, fantasias que também se estabelecem como um apoio emocional, distanciamento da realidade sem se desligar dos fatos reais, um descanso momentâneo ou refúgio do real. Essas experiências pautadas na imaginação proporcionam na perspectiva de Vygotsky (1998):

Uma atividade superior capaz de criar e combinar fatos, percepções e imagens a partir do que já foi vivido, ou seja, a experiência serve de base para a imaginação, mas o produto desta distancia-se do imediatamente percebido. (BARROCO, 2014, p. 28).

As meninas são extremamente carismáticas e descritas como crianças reais que apresentam diálogos, brincadeiras, interesses e medos das fases de vida e coerente com suas idades. Mei, a caçula fica mais tempo em casa, cuidada por uma senhora, vizinha no vilarejo, demonstrando como a comunidade e a cultura japonesas nas cidades rurais vivenciam a coletividade e uma vida colaborativa, onde a parceria e sabedoria dos mais velhos demonstram enorme relevância para a estrutura social e até mesmo econômica.

Voltando a Mei, criança que sente as mudanças em sua vida e começa a se divertir e espairecer ao conviver com criaturas mágicas e amigas. Segundo Taylor (1999; 2010) o faz de conta, no caso os amigos imaginários, além de ser uma fonte de diversão, estabelece companhia, apoio emocional e superação de medos, promovendo resiliência.

Mei tem em sua irmã um apoio, tanto que não entende os momentos de separação causados pela diferença de idade que causam situações rotineiras que as distanciam. Satsuki, a primogênita vive as experiências da pré-adolescência, dividida entre a inocência do findar da infância, as responsabilidades causadas por todo conflito familiar e as atribuições recebidas pelo afeto, por ser a filha mais velha, quando cito o afeto tento evidenciar que todo carinho e cuidado dessa irmã se cria pelo amor. Sentimento esse que cresce pela falta da presença diária da mãe, tornando essa futura mocinha, uma pessoa obrigada a amadurecer e conviver com os cuidados diários de uma casa, rotina escolar e convivência com seus pares.

Essa situação se encontra tão presente no cotidiano familiar agora e desde sempre, como escreve:

A arte está para a vida como o vinho para a uva – disse um pensador, e estava coberto de razão, ao indicar assim que a arte recolhe da vida o seu material mas produz acima desse material algo que ainda não está nas propriedades desse material”. (BARROCO, 2014, p. 23 apud Vygotsky, 1999, p. 308 ).

No desfecho do filme, apresenta-se um clímax intenso, que revela os pontos mais sérios como o adiamento da visita da mãe que iria passar o final de semana em casa. Sugerindo assim que houve uma piora no quadro clínico e a fuga da caçula que deseja estar com a mãe.

Por fim, em seu momento mais conturbado, há uma mistura da realidade e de fantasia com intuito de continuar com um filme doce e inocente, entretanto em um contexto real das possibilidades cotidianas.

O anime é produzido para dialogar diretamente com o público infantil, entretanto trata-se de uma obra que deve ser vista por toda a família, professores, estudante. Além da experiência visual e sonora riquíssimas, enxerga-se a narrativa moral que aborda questões familiares de forma intimista, explicando a importância do compartilhar e explorando os sentimentos coletivos que ultrapassam os limites rurais do Japão e torna-se universais, inclusive podendo ser explorados em sala, ou mesmo no AEE.

Trata-se de um filme com histórias do cotidiano misturado com uma fantasia sem exagero, uma obra prima, adorável de assistir e de fácil compreensão. O ritmo do filme é cadenciado e a história transborda de cultura Japonesa.

A meu ver, a narrativa, se enquadra entre as “Teorias da recepção cinematográfica ou teorias da espectatorialidade fílmica” na perspectiva materialista historiográfica hermenêutica, ou seja, que no foco da interpretação dos filmes são os fatores contextuais e históricos segundo os estudos e o modelo da Staiger (1992):

[…] em sintonia com a lógica e a “postura neo-marxista”, Staiger constrói um modelo historiográfico e materialista em que a formalização dos modos de recepção e da espectatorialidade passa pela descrição das relações entre os textos e os leitores. […] a diversidade de interpretação pode se explicar por razões de ordem idiossincrática (tipo de relação que cada indivíduo tem com a obra). (BAMBA, 2013, p. 50)

Com a essência da Teoria Histórico e Cultural de Vygotski de uma interação da pessoa com o mundo, da pessoa com outras pessoas e principalmente da pessoa consigo mesmo. Acercar-se como objetivo central “caracterizar os aspectos tipicamente humanos do comportamento e elaborar hipóteses de como essas características se formaram ao longo da história humana e de como se desenvolvem durante a vida de um indivíduo”. (VYGOTSKY, 1984, p. 21 apud COLE; SCRIBNER, 1984, p. 6).

Tendo em vista a imersão na vida de alguns personagens, natural quando nos identificamos com símbolos, valores, a irmã mais velha simbolizou e trouxe minhas lembranças vivenciadas na infância, em especial quando a personagem cuidava de sua irmã caçula enquanto sua mãe se encontrava doente. Para além, e finalmente, em se tratando de sala de recursos e atendimento educacional especializado, partir do referencial moral do anime, deixo para reflexões alguns valores que são essenciais na inclusão escolar. Para além, e finalmente, em se tratando do Atendimento Educacional Especilizado em Sala de Recursos Generalista essa resenha faz parte de um estudo sobre as possibilidades da utilização dos animes nesse atendimento onde a partir do aprofundamento da teorias do desenvolvimento se possibilitam um olhar reflexivo dessa ferramenta mediadora de acordo com a Teoria Histórico Cultural de Vygotsky.

REFERÊNCIAS

BAMBA, M. (2013). Teorias da recepção cinematográfica ou teorias da espectatorialidade fílmica?. A RECEPÇÃO CINEMATOGRÁFICA, 21-68.

BARROCO, S. M. S. & Superti, T. (2014). Vigotski e o estudo da psicologia da arte: contribuições para o desenvolvimento humano. Psicologia & Sociedade, 26(1), 22-31.

TAYLOR, M. (1999). Imaginary companions and the children who create them. Melbourne: Oxford University Press.

TAYLOR, M., Hulette, A. C., & Dishion, T. J. (2010). Longitudinal outcomes of young high-risk adolescents with imaginary companions. Developmental Psychology, 46, 1632-1636. doi: 10.1037/a0019815.

COLE, M.; SCRIBNER, S. “Introdução” In: VYGOTSKY, L.S. A formação social da mente. São Paulo, Martins Fontes, 1984. 90p.

FILMOGRAFIA:

Meu Vizinho Totoro.

Direção: Hayao Miyazaki

Roteiro Hayao Miyazaki

 
Título original: Tonari no Totoro

Japão. Cor. 86 min. 1988.

 

 

 

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