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QUAIS AS CARACTERÍSTICAS DE UM ALUNO COM ALTAS HABILIDADES/SUPERDOTAÇÃO?


 

Tecnologia Assistiva – Podcast do Artigo
Locução – Lunna Mara

Rachel Rabelo: Graduada em Letras, especialista em Educação Inclusiva e em Informática na Educação, Professora da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal há 28 anos, já atuou na formação de professores no Núcleo de Tecnologia Educacional e,atualmente, é professora da Área Acadêmica Linguagens, no Atendimento Educacional Especializado em Altas Habilidades/Superdotação Sobradinho-DF.


 

 

RESUMO

O fenômeno Altas Habilidades/Superdotação ainda é cercado de mitos e compreensões equivocadas, mas felizmente é um assunto em expansão no Brasil. A identificação, o cadastramento e o atendimento destes estudantes teve amparo em 29 de dezembro de 2015 quando foi publicada a Lei 13.234, a qual dispõe sobre o Cadastro Nacional dos Estudantes com Altas Habilidades/Superdotação matriculados na educação básica e na educação superior. Espera-se que com esse cadastro haja o fomento à execução de políticas públicas destinadas ao pleno desenvolvimento desse alunado. Este breve artigo tem como objetivo alimentar um pouco mais o debate em torno da matéria, apresentando algumas das nuanças que ora identifica-se no discente com altas habilidades.

 

Palavras-chave: Altas Habilidades. Superdotação. Políticas Públicas.

 

1.INTRODUÇÃO

O Brasil tem, atualmente, 24.424 estudantes com o perfil de AH/SD habilidades/superdotação matriculados na educação especial, de acordo com o Censo Escolar 2020. Todavia, o número real pode ser ainda maior, pois de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 5% da população têm algum tipo de alta habilidade ou superdotação. E se forem considerados os mais de 47 milhões de alunos da educação básica (Censo Escolar INEP 2020 – MEC), aproximadamente 2,3 milhões de estudantes devem compor esse grupo. Apresentam-se como grandes desafios, neste cenário, a identificação, o reconhecimento de suas características, potenciais e necessidades educacionais e o atendimento de modo a proporcionar o pleno desenvolvimento do potencial desses estudantes na educação básica.
A desinformação sobre o assunto corrobora para uma invisibilidade dos alunos com AH/SD e muitos educadores ainda relacionam a superdotação ao aluno com desempenho muito elevado nas atividades curriculares, ao ajustamento socioemocional, às habilidades psicomotoras e a um perfil proativo, realizador. Embora existam alunos com esse perfil, eles não retratam todo o universo da superdotação e, por isso, a formação dos educadores é muito importante, por terem a oportunidade do contato diário e de perceberem, em seus estudantes, indicadores de um potencial superior, habilidades, aptidões e desempenhos e assim encaminhá-los para um atendimento que propicie o desenvolvimento e a potencialização dos seus talentos e habilidades.

O Ministério da Educação, em seu documento “Subsídios para Organização e Funcionamento de Serviços de Educação Especial – Área de Altas Habilidades” (Brasil, 1995, p. 17), aponta a seguinte perspectiva de Superdotação adotada, oficialmente, pelo Brasil

Portadores de altas habilidades/superdotados são os educandos que apresentam notável desempenho e elevada potencialidade em qualquer dos seguintes aspectos, isolados ou combinados: capacidade intelectual superior; aptidão acadêmica específica; pensamento criativo ou produtivo; capacidade de liderança; talento especial para artes e capacidade psicomotora.

Entre as bases teóricas e concepções que fundamentam o conceito e a implementação de programas de identificação e atendimento de alunos AH/SD no Brasil, destaca-se Renzulli (1986, 2002) cuja abordagem distingue dois tipos de superdotação:

  1.  A primeira, a qual se refere como superdotação do contexto educacional, é apresentada por indivíduos que se saem bem na escola, aprendem rapidamente, têm um nível de compreensão mais elevado e, tradicionalmente, os que têm sido mais selecionados para participar de programas especiais e atendimento ao superdotado.
  2.  A segunda, que chama de criativa-produtiva, diz respeito àqueles aspectos da atividade humana na qual se valoriza o desenvolvimento de produtos originais e criativos.

 

2. DESENVOLVIMENTO: CARACTERÍSTICAS DA ALTAS HABILIDADES/SUPERDOTAÇÃO

Nesta perspectiva, tanto as crianças talentosas quanto as crianças com habilidade acadêmica são igualmente consideradas superdotadas.Na busca de se definir e esclarecer estes traços e características comuns ao aluno com altas habilidades para os sistemas educacionais, documentos oficiais foram elaborados no Brasil. Embora diversos pesquisadores, educadores, psicólogos e neurocientistas mencionem uma grande diversidade de habilidades, competências, padrões cognitivos, afetivos, comportamentais e neurofisiológicos, eles também admitem que existem características evidentes e comuns. Em 2004, o Ministério da Educação, através do Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN, em sua série de Adaptações Curriculares, Saberes e Práticas da Inclusão (Brasil, 2004), publicada pela Secretaria de Educação Especial, atribuiu os seguintes traços como comuns aos superdotados: 

  • Alto grau de curiosidade.
  • Boa memória.
  • Atenção concentrada.
  • Persistência.
  • Independência e autonomia.
  • Interesse por áreas e tópicos diversos.
  • Facilidade de aprendizagem.
  • Criatividade e imaginação.
  • Iniciativa.
  • Liderança.
  • Vocabulário avançado para sua idade cronológica.
  • Riqueza de expressão verbal (elaboração e fluência de ideias).
  • Habilidade para considerar pontos de vista de outras pessoas.
  • Facilidade para interagir com crianças mais velhas ou com adultos.
  • Habilidade para lidar com ideias abstratas.
  • Habilidade para perceber discrepâncias entre ideias e pontos de vista.
  • Interesse por livros e outras fontes de conhecimento.
  • Alto nível de energia.
  • Preferência por situações/objetos novos.
  • Senso de humor  e originalidade para resolver problemas.

2. 1 MODELO DOS TRÊS ANÉIS DE RENZULLI

       Renzulli propôs ainda uma concepção de superdotação onde a inteligência é um dos fatores para a identificação, mas englobando outras aptidões como os aspectos artísticos, motivacionais e a capacidade de liderança. A concepção envolve o entrelaçamento de três grandes variáveis interagindo em pessoas com altas habilidades/superdotação. Estas variáveis são indicadores de um potencial elevado em alguma área do conhecimento ou diversas combinadas.  

A primeira grande variável “Habilidades acima da média” diz respeito tanto a habilidades gerais (que envolvem a capacidade de processar informações, integrar experiências resultando em respostas adaptativas e apropriadas a novas situações e engajar em pensamento abstrato) como habilidades específicas (que incluem a capacidade de adquirir conhecimento, destreza ou habilidade para realizar uma ou mais atividades de uma área especializada). Renzulli exemplifica as habilidades específicas em atividades como balé, escultura, fotografia, química e matemática.

A segunda grande variável é motivacional e está representada no envolvimento e na energia que o indivíduo canaliza para resolver problemas ou tarefas. É o  “Envolvimento com a tarefa”  e inclui atributos pessoais, como perseverança, dedicação, esforço, autoconfiança e a crença na própria habilidade de desenvolver um importante trabalho.

A terceira grande variável é a “Criatividade” e sugere que o entendimento e a análise dos produtos criativos de uma pessoa, o seu potencial criador.1

Estas três variáveis não se apresentam todas no mesmo nível ou ao mesmo tempo ao longo da vida produtiva do aluno, sendo mais importante uma constante interação para que um alto nível de produtividade criativa possa manifestar-se e resultar em notáveis desempenhos, mas nunca se deve generalizar o assunto, pois existem alunos que, mesmo apresentando os indicadores comportamentais de AH/SD, têm rendimento escolar inferior e merecem uma atenção especial, pois não tem interesse e motivação para os estudos acadêmicos e para a rotina escolar, podendo apresentar, inclusive, dificuldades de ajustamento ao grupo de colegas, que também desencadeia problemas de aprendizagem e de adaptação escolar.

Todas estas considerações mostram um fenômeno amplo, multidimensional e falar no assunto  exige considerar os aspectos cognitivos, as características afetivas, de personalidade e neuropsicomotoras, como também as influências do contexto histórico, social e cultural sobre o fenômeno. E o questionamento mais frequente, portanto, é sobre quais seriam então as características que identificam estas pessoas como sendo pessoas com AH/SD.


1 Ver figura 2 , na seção anexos do artigo,  constam os itens discutidos com os professores acerca das possíveis dificuldades de leitura dos estudantes:

 

As características abaixo podem auxiliar pais e professores na identificação de crianças ou jovens que demonstram excelência ou forte potencial para obter sucesso em uma ou mais das áreas. Elas foram propostas por Renzulli, et al. (2000), quando desenvolveram, em suas pesquisas, uma escala para avaliar as características de estudantes com desempenho superior e vários fatores que devem ser analisados no processo de caracterização e identificação do indivíduo superdotado. Essas características são:

Habilidade Intelectual

  • habilidade de lidar com abstrações;
  • facilidade para lembrar informações;
  • vocabulário avançado para idade ou série;
  • facilidade em perceber relações de causa e efeito;
  • habilidade de fazer observações perspicazes e sutis;
  • grande bagagem sobre um tópico específico; 
  • habilidade de entender princípios não diretamente observados;
  • grande bagagem de informações sobre uma variedade de tópicos;
  • habilidade para transferir aprendizagens de uma situação para a outra;
  • habilidade de fazer generalizações

Criatividade

  • senso de humor;
  • habilidade de pensamento imaginativo;
  • atitude não conformista;
  • pensamento divergente;
  • espírito de aventura;
  • disposição para correr riscos;
  • habilidade de adaptar, melhorar ou modificar ideias;
  • habilidade para produzir respostas incomuns, únicas ou inteligentes;
  • disposição para fantasiar, brincar e manipular ideias;
  • habilidade de gerar um grande número de ideias ou soluções para problemas ou questões.

Motivação

  • persistência quando se busca atingir um objetivo ou na realização de tarefas;
  • interesse constante por certos tópicos ou problemas;
  • comportamento que requer pouca orientação dos professores;
  • envolvimento intenso quando trabalha certos temas ou problemas;
  • obstinação em procurar informações sobre tópicos de seu interesse;
  • compromisso com projetos de longa duração;
  • preferência por situações nas quais possa ter responsabilidade pessoal sobre o produto de seus esforços;
  • pouca necessidade de motivação externa para finalizar um trabalho que inicialmente se mostrou estimulante.

Liderança

  • tendência a ser respeitado pelos colegas;
  • autoconfiança quando interage com colegas da sua idade;
  • comportamento cooperativo ao trabalhar com os outros;
  • habilidade de articular ideias e de se comunicar bem com os outros;
  • habilidade de organizar e trazer estrutura a coisas, pessoas e situações;
  • tendência a dirigir as atividades quando está envolvido com outras pessoas;
  • responsabilidade.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em todas as salas de aulas, temos indivíduos superdotados que aprendem, agem e raciocinam diferentemente. Isso é um fato. Não são, necessariamente, melhores, nem piores. São pessoas cuja identificação se justifica no atendimento de suas necessidades educacionais especiais, como também na necessidade de termos, em nossa sociedade, pessoas talentosas, inteligentes, capazes e ávidas para contribuir significativamente com as ciências, as tecnologias, as artes e a cultura, a sociedade e a economia. Em nossa pesquisa, resulta um caminho que demandará mais leituras e aprofundamentos teóricos, bem como a contínua observações dos discentes que frequentam as salas de recursos de altas habilidades/superdotação. Contudo, somos inclinados a enxergar o Cadastro Nacional dos Estudantes com Altas Habilidades/Superdotação  como uma política afirmativa que se conduzida com sucesso, logrará efeito positivo em todo território nacional, ainda que sua eficácia seja sentida de forma peculiar em cada unidade da Federação

4.  ANEXOS

5. REFERÊNCIAS

5. REFERÊNCIAS
BRASIL. (2002). Parâmetros curriculares nacionais – adaptações curriculares. Brasília: Ministério da Educação/Secretaria de Educação Especial.
FLEITH, Denise de Souza (org). A construção de práticas educacionais para alunos com altas habilidades/superdotação: volume 1: orientação a professores / organização: Denise de Souza Fleith. – Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial, 2007.
PÉREZ, Susana Graciela Pérez Barrera; FREITAS, Soraia Napoleão. Encaminhamentos pedagógicos com alunos com altas habilidades/superdotação na educação básica: o cenário brasileiro. Educar em Revista. Curitiba: n.41, p.109-124, 2011.
RENZULLI, Joseph Salvatore. The three-ring conception of giftedness: A development model for creative productivity. Em R. J. In: STERNBERG, Robert Jeffrey & DAVIDSON, James Edward (Orgs.), Conceptions of giftedness (). New York: Cambridge University Press. pp. 53-92, 1986.
RENZULLI, Joseph Salvatore. A general theory for the development of creative productivity through the pursuit of ideal acts of learning. Gifted Child Quarterly, 36, 170-182. 1992.
RENZULLI, Joseph Salvatore. Emerging conceptions of giftedness: Building a bridge to the new century. Exceptionality, 10, 67-75, 2002.
RENZULLI, Joseph Salvatore, et al. Scales for Rating the Behavior Characteristics of Superior Students. Revised edition (SRBCSS-R). Mansfield Center, CT: Creative Learning Press. 2000
SABATELLA, M. L. P. Talento e superdotação: problema ou solução? Curitiba: Editora IBPEX, 2005.
SOUZA, Ludmilla. Mais de 24 mil crianças no Brasil são superdotadas, mostra censo. Repórter da Agência Brasil – São Paulo: 10, out. 2021. Disponível em:https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2021-08/Mais-de-24-mil- criancas-no-brasil-sao-superdotadas-mostra-censo. Acesso em: mar. 2022.
VIRGOLIM, Angela Mágda Rodrigues. Altas habilidade/superdotação: encorajando potenciais / Angela M. R. Virgolim – Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial, 2007


COMO CITAR
RABELO, Rachel Souza, Quais as características de um Aluno com Altas Habilidades/Superdotação? In: Revista Sala de Recursos, vol.3, n.1, p., jan. – jun. 2022. Disponível em:<https://www.saladerecursos.com.br>.

 












 



 


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